É difícil separar Blood and Wine de seus vampiros.
Dettlaff conduz boa parte do mistério. Regis é um dos personagens mais importantes da expansão. E até o título parece anunciar o contraste entre o vinho de Toussaint e o sangue escondido sob suas paisagens coloridas.
Mas houve um momento em que nada disso estava garantido.
Durante o desenvolvimento da segunda expansão de The Witcher 3, a CD Projekt RED experimentou diferentes versões da história. Regis entrou e saiu do roteiro, houve uma versão sem Dettlaff e, por um breve período, chegou a existir uma Blood and Wine sem vampiros.
Sim.
Uma Blood and Wine praticamente sem o “Blood”.

Regis nem sempre esteve na história
As revelações foram feitas por Tomasz Marchewka, roteirista de The Witcher 3, durante uma conversa com o PC Gamer sobre conteúdos descartados do RPG.
Segundo ele, foram consideradas diversas versões ao longo do caminho.
Regis foi uma das grandes incertezas.
O velho amigo de Geralt possui uma situação particularmente complicada quando pensamos na continuidade dos livros de Andrzej Sapkowski. Seu destino na saga literária tornava qualquer retorno uma decisão que precisava ser cuidadosamente trabalhada pela CD Projekt RED.
Por isso, durante a construção da expansão, existiram versões com Regis e versões sem ele.
Hoje parece difícil imaginar Toussaint sem sua presença.
Na época, ainda era uma possibilidade.
Dettlaff também poderia não existir
E Regis não foi o único vampiro que entrou e saiu da equação.
Marchewka revelou que a equipe também trabalhou com versões da expansão nas quais Dettlaff não estava presente.
É uma mudança enorme.
Na versão que chegou aos jogadores em 2016, a investigação dos assassinatos cometidos pela Besta de Beauclair leva Geralt até Dettlaff e, posteriormente, ao relacionamento do vampiro com Syanna.
É daí que boa parte da trama começa a se desmontar em camadas.
O monstro procurado por Geralt tem seus próprios motivos.
A vítima também esconde seus segredos.
E aquilo que inicialmente parece uma investigação sobre uma criatura assassinando cavaleiros de Toussaint acaba se tornando uma história muito mais complicada sobre manipulação, abandono e vingança.
Retire Dettlaff e quase todo esse quebra-cabeça precisa ser montado novamente.
Mas a CD Projekt RED chegou a imaginar algo ainda mais radical.
Por um breve momento, Blood and Wine não tinha vampiros
Marchewka confirmou que existiu uma versão da expansão completamente sem vampiros.
Ela não durou muito.
O próprio roteirista fez questão de destacar que essa possibilidade existiu apenas durante um período bastante curto do desenvolvimento e preferiu não revelar como aquela versão da história funcionaria.
E talvez essa seja a parte mais curiosa.
Porque os vampiros não foram uma ideia acrescentada no final da produção.
Segundo Marchewka, quando ele entrou no projeto, recebeu essencialmente duas grandes diretrizes sobre aquilo que a expansão deveria ser: seria grande e seria sobre vampiros.
Em algum momento, portanto, até uma das ideias fundamentais de Blood and Wine foi colocada sobre a mesa.
Até as ideias centrais podem desaparecer durante o desenvolvimento
É tentador olhar para um jogo pronto e imaginar que sua história sempre existiu daquela maneira.
Regis precisava estar lá.
Dettlaff precisava ser a Besta de Beauclair.
Os vampiros precisavam ocupar o centro do mistério.
Só que desenvolvimento raramente funciona assim.
Personagens entram e saem. Missões são reescritas. Ideias que pareciam fundamentais deixam de funcionar quando todas as peças são colocadas juntas.
Blood and Wine passou pelo mesmo processo.
E não foram apenas os vampiros.
Uma grande missão sobre um falso cavaleiro também foi cortada
Marchewka revelou outra história que chegou a ser planejada para Toussaint.
Ela acompanharia Egg, um jovem ajudante de estábulo que encontraria um cavaleiro morto e roubaria sua armadura, decidido a partir em uma aventura e impressionar uma mulher.
O problema é que Egg não era cavaleiro.
Nem estava preparado para aquilo.
A armadura seria pesada demais e, durante sua jornada, o rapaz começaria a abandonar suas peças uma por uma até acabar praticamente nu, carregando apenas uma espada diante de um monstro que jamais teria condições de derrotar.
Geralt acabaria salvando sua vida.
E aí viria a parte verdadeiramente The Witcher da história.
Quando Egg retornasse à vila, as pessoas descobririam que ele havia roubado a armadura do cavaleiro morto.
O jovem seria linchado e morto pelos próprios moradores.
Geralt conseguiria salvá-lo do monstro.
Mas não das pessoas.
A missão combinava perfeitamente com Toussaint
Talvez seja justamente por isso que a história de Egg seja tão interessante.
Toussaint é um lugar obcecado pela imagem da cavalaria.
Honra, torneios, damas, brasões e códigos cavaleirescos estão por toda parte. O ducado parece ter saído diretamente de um conto medieval — até Geralt começar a olhar um pouco mais de perto.
Egg queria vestir aquela fantasia.
Literalmente.
Roubar a armadura significava transformar-se, pelo menos exteriormente, no herói que Toussaint celebrava.
Mas a história terminaria lembrando que naquele mundo parecer um cavaleiro nunca seria suficiente para se tornar um.
Marchewka assumiu parte da responsabilidade pelo corte e afirmou que a missão acabou não funcionando por uma questão de execução.
Mais uma ideia deixada pelo caminho.
O Blood and Wine que conhecemos foi apenas uma das possibilidades
No final, os vampiros permaneceram.
Regis voltou.
Dettlaff tornou-se o centro de um dos conflitos mais importantes da expansão.
E Blood and Wine chegou em 2016 transformando Toussaint em uma terra aparentemente saída de um conto de fadas, mas com algo muito mais sombrio correndo por baixo de seus vinhedos. A expansão acabou profundamente associada aos vampiros e à relação entre Geralt, Regis e Dettlaff.
Hoje, parece inevitável.
Mas não era.
Durante algum tempo dentro da CD Projekt RED, existiu uma Toussaint sem Dettlaff.
Outra sem Regis.
E, por um breve momento, uma versão de Blood and Wine na qual não havia sangue de vampiro algum.
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