Poucos jogos atravessam uma década sem perder o brilho.
The Witcher 3: Wild Hunt conseguiu algo ainda mais difícil: chegou aos 11 anos sendo tratado por muitos jogadores como uma referência que não deveria ser mexida. Mas Marcin Blacha, uma das principais figuras por trás da narrativa do RPG, não parece interessado em colocá-lo dentro de uma redoma.
Para ele, The Witcher 3 não é intocável.
Em entrevista recente ao PC Gamer, o atual vice-presidente de narrativa da CD Projekt RED e antigo lead writer do jogo explicou que ainda consegue voltar ao Continente, observar algumas partes da aventura e pensar que, com tudo o que aprendeu desde então, hoje faria certas coisas de outra maneira.
E talvez o exemplo mais interessante tenha um chapéu de penas.
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ToggleDandelion poderia ter sido mais do que o alívio cômico
Blacha citou Dandelion como um personagem que provavelmente receberia um tratamento diferente caso estivesse escrevendo The Witcher 3 atualmente.
Não porque considere sua versão original ruim.
O ponto é outro.
O bardo frequentemente ocupa uma posição cômica dentro da aventura. É exagerado, mulherengo, mete-se em problemas e, quando Geralt finalmente chega a Novigrad procurando informações sobre Ciri, descobre que seu velho amigo deixou para trás uma pequena coleção de confusões que precisam ser resolvidas.
Hoje, Blacha acredita que poderia ter colocado um pouco mais de sabedoria e solidariedade nessa versão do personagem, dando novas nuances a alguém que acabou sendo utilizado muitas vezes como fonte de humor.
É uma observação pequena.
Mas que se torna muito mais interessante quando lembramos do que está por vir.
Songs of the Past coloca Dandelion novamente sob os holofotes
Mais de uma década depois, a CD Projekt RED está voltando ao mesmo jogo com Songs of the Past.
E Dandelion está no centro dessa história.
A nova expansão promete mergulhar no passado da família Lettenhove e explorar aspectos do bardo que permaneceram praticamente escondidos durante a aventura original. Isso não significa que a CD Projekt RED esteja tentando “corrigir” o personagem — Blacha não afirmou isso.
Mas existe uma coincidência interessante.
O personagem que hoje ele gostaria de ter desenvolvido com mais nuances é justamente aquele que receberá uma nova oportunidade de mostrar lados que The Witcher 3 pouco explorou.
Talvez seja aí que retornar a um jogo depois de tantos anos se torne algo diferente de simplesmente continuar uma história.
Voltar a The Witcher 3 também significa reencontrar quem o criou
Blacha descreveu o desenvolvimento de Songs of the Past quase como entrar em uma máquina do tempo.
A equipe conseguiu encontrar espaço para uma nova aventura que coexistisse com The Witcher 3, Hearts of Stone e Blood and Wine. De repente, trabalhar naquele universo novamente significava revisitar decisões tomadas por pessoas que, profissionalmente, eram muito diferentes onze anos atrás.
Porque o jogo permaneceu.
Os desenvolvedores, não.
Eles escreveram outros personagens, construíram outros mundos, erraram, acertaram e acumularam mais de uma década de experiência desde que Geralt cavalgou pela primeira vez pelas estradas de Velen.
É natural olhar para trás e encontrar coisas que poderiam ser diferentes.
E as escolhas também poderiam ir mais longe
Dandelion não foi o único exemplo levantado por Blacha.
O diretor também disse que gostaria de aprofundar ainda mais as escolhas e consequências nas interações de Geralt com o mundo. Uma declaração particularmente curiosa quando estamos falando de um jogo cuja reputação foi construída, em boa parte, justamente sobre decisões difíceis e resultados nem sempre previsíveis.
Mas talvez essa seja justamente a questão.
Não se trata de negar aquilo que The Witcher 3 fez bem.
Trata-se de perguntar até onde aquilo poderia ter ido.
Em outra declaração recente, Blacha explicou que uma grande escolha em The Witcher deveria ser construída de maneira que o jogador chegasse a largar o controle, levantar e andar um pouco enquanto pensa no que fazer. A resposta não deveria parecer evidente; o dilema deveria sobreviver alguns minutos fora da tela.
É uma filosofia que ajuda a explicar algumas das histórias mais lembradas do jogo.
E que continuará presente em Songs of the Past.
The Witcher 3 não precisa ser perfeito para continuar sendo especial
Talvez essa seja a parte mais interessante das declarações de Marcin Blacha.
Onze anos podem transformar um grande jogo em monumento.
As falhas ficam menores na memória, as melhores missões tornam-se referência e qualquer possibilidade de mudança começa a soar quase como sacrilégio.
Mas seus próprios criadores não precisam enxergá-lo dessa maneira.
The Witcher 3 pode continuar sendo um dos RPGs mais importantes de sua geração e, ao mesmo tempo, carregar personagens que poderiam ter recebido mais profundidade, escolhas que poderiam ter ido mais longe e ideias que seus roteiristas abordariam de outra maneira hoje.
E Songs of the Past coloca a CD Projekt RED em uma posição raríssima.
Voltar ao mesmo mundo, ao mesmo Geralt e aos mesmos personagens — mas com onze anos a mais de experiência nas costas.
Talvez seja por isso que Blacha não enxergue The Witcher 3 como um monumento intocável.
Um monumento serve para ser observado.
Um jogo ainda pode ganhar novas histórias.