Desde o anúncio do filme, a HQ Mulher do Amanhã foi apontada como a principal inspiração para a produção, algo perceptível em diversos aspectos. A começar pela narrativa, que segue a base do quadrinho ao acompanhar Kara e Ruthye em uma jornada de vingança contra Krem, responsável pela morte do pai da garota.![]()
A trama mantém essa premissa central, mas apresenta sua própria abordagem e incorpora novos elementos e personagens. Uma das adições mais comentadas é Lobo, interpretado por Jason Momoa. “O Maioral” recebe bastante destaque ao longo do filme e funciona como um eficiente alívio cômico graças à sua grosseria e postura de brutamontes. Ainda que seja uma versão mais leve do personagem, sua essência permanece intacta, com charutos, bebidas, xingamentos e, claro, muitas mortes.
O grande destaque, porém, é a própria Supergirl, vivida por Milly Alcock. A personagem se assemelha bastante à versão apresentada na HQ, iniciando a história afogada em mágoas e álcool, enquanto passa por um importante desenvolvimento ao longo da trama.
O que torna essa versão da Supergirl tão interessante, é justamente o fato de ela não ser retratada como uma heroína perfeita. Kara é impulsiva, carrega ressentimentos, toma decisões questionáveis e frequentemente age guiada pelos traumas de seu passado. Ainda assim, nunca perde sua essência altruísta. Mesmo machucada, continua ajudando pessoas, protegendo inocentes e tentando fazer o que considera correto. Essa combinação de virtudes e falhas faz com que a personagem se torne extremamente relacionável para o público. Afinal, sua jornada não é sobre alguém que sempre sabe qual é a decisão certa, mas sobre alguém que erra, aprende e continua tentando fazer o bem apesar de suas próprias cicatrizes.
Nesse sentido, Milly Alcock transmite muito bem os sentimentos de Kara, especialmente nas cenas em que relembra Argos, o último fragmento de Krypton que sobreviveu graças ao esforço de seu pai.
É justamente nesse momento que o filme explora sua maior carga emocional. Uma das sequências mais marcantes mostra os pais da heroína e como a radiação os enfraqueceu e matou lentamente, ao mesmo tempo em que explica a origem de seus traumas e de seu comportamento autodestrutivo.
O projeto também se destaca pela cinematografia. Como a narrativa se desenrola pelo espaço e por diferentes planetas, cada mundo apresenta identidade visual própria e cenários extremamente agradáveis aos olhos. Esse, inclusive, é um dos pontos mais fortes do atual DCU: a variedade de propostas, gêneros e abordagens. O universo transita de aventuras espaciais como Supergirl ao terror corporal de Cara de Barro, previsto para estrear em outubro.
É inegável o simbolismo da Supergirl quando o assunto é empoderamento e força feminina. Com duas protagonistas, o filme aborda de forma contundente a luta das mulheres e representa com eficiência essa força e esse simbolismo. Além de saquear e destruir planetas, os saqueadores também escravizam e abusam das mulheres para perpetuar uma linhagem exclusivamente masculina. As prisioneiras são chamadas de “as noivas” e, em um dos confrontos finais do filme, após serem libertadas por Kara, passam a lutar contra seus próprios abusadores. A cena reforça a maneira como a kryptoniana inspira aqueles ao seu redor.
O maior choque do longa, sem dúvida, está em seu final. Diferentemente de Mulher do Amanhã, a conclusão segue um caminho inesperado justamente por se afastar do material original. Nos quadrinhos, Supergirl impede Ruthye de matar Krem e ele é condenado a 300 anos na Zona Fantasma. Anos depois, vemos um Krem idoso e redimido, enquanto Ruthye publica um livro relatando sua jornada com Kara. Na obra, ela afirma que a heroína tirou a vida do vilão para que apenas ela carregasse o peso e as consequências daquele ato.
No filme, Supergirl também aconselha Ruthye a não executar Krem, explicando o fardo da vingança e como ela pode consumir uma pessoa. Porém, assim que a garota deixa a cena, é a própria Kara quem dá fim ao antagonista. A decisão possui um tom quase poético: alguém tão marcado pela dor e pela amargura não deseja que outra pessoa carregue uma cruz tão pesada quanto a responsabilidade de tirar uma vida.
Não chega a ser surpresa que Superman faça algumas aparições ao longo do filme, sendo a principal delas na cena final. Nela, ele conversa com sua prima, que revela ter decidido permanecer na Terra. É um momento importante para a personagem, que finalmente passa a enxergar o planeta como seu lar e adota uma postura mais otimista em relação ao futuro.
E é inevitável que surjam comparações entre os dois filmes. Para mim, Supergirl é superior ao filme de estreia do novo universo da DC. Seja pela narrativa, que transita com naturalidade entre drama, humor e ação; pela cinematografia e pelos efeitos visuais, que realmente transportam o espectador para o espaço; ou pelas atuações, sustentadas por um elenco carismático e personagens cativantes. Nesse aspecto, os destaques absolutos ficam para Milly Alcock e Jason Momoa.
Mudanças em relação ao material base
Além do desfecho do antagonista, outras mudanças em relação à minissérie em quadrinhos também chamam atenção. A chamada “prisão” sob um sol verde, por exemplo, possui uma origem diferente. Na HQ, Supergirl e Ruthye são transportadas para lá por meio de um artefato mágico chamado O Globo. Já no filme, o local é simplesmente um planeta habitado pelos criminosos e utilizado como base de operações justamente por explorar a fraqueza da kryptoniana.
Outra alteração é a ausência dos dinossauros presentes nos quadrinhos, algo que teria sido interessante de ver na adaptação, principalmente por inverter a dinâmica de proteção entre Kara e Ruthye. Da mesma forma, toda a trama envolvendo segregação, racismo e o massacre de uma raça alienígena específica foi removida. Ainda assim, como mencionado anteriormente, o filme continua abordando temas adultos e pesados, como abuso sexual e exploração feminina.
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