O Último Desejo: Geralt e Yennefer provam que amar também é uma escolha

O amor costuma ser retratado na ficção como algo simples: duas pessoas se encontram, se apaixonam, enfrentam alguns obstáculos e, no fim, vivem felizes para sempre. No entanto, a vida raramente segue esse roteiro. Talvez seja justamente por isso que a relação entre Geralt de Rívia e Yennefer de Vengerberg continue sendo uma das histórias de amor mais marcantes da fantasia moderna.

Ao longo dos livros de Andrzej Sapkowski e dos jogos da CD Projekt Red, os dois personagens constroem uma relação intensa, cheia de desencontros, conflitos e reencontros. Mais do que um romance, a trajetória de Geralt e Yennefer é uma reflexão sobre destino, escolhas e a dificuldade de amar quando se carrega tantas cicatrizes emocionais.

Geralt de Rívia e Yennefer conversam durante a missão O Último Desejo em The Witcher 3
Antes de descobrirem a verdade sobre seus sentimentos, Geralt e Yennefer precisam enfrentar uma dúvida que os acompanha há décadas.

Tudo começou com um desejo

A história dos dois começa no conto O Último Desejo, presente na coletânea de mesmo nome. Quando Geralt conhece Yennefer, nenhum deles está procurando um relacionamento. Ela é uma feiticeira poderosa, ambiciosa e acostumada a controlar as situações ao seu redor. Ele é um bruxo solitário, treinado para reprimir emoções e viver à margem da sociedade.

Durante os eventos do conto, os dois acabam envolvidos com um djinn, uma criatura mágica capaz de conceder desejos. Quando percebe que Yennefer corre risco de vida ao tentar controlar a entidade, Geralt utiliza seu último desejo para salvá-la.

O conteúdo exato desse desejo nunca é revelado por Sapkowski, mas suas consequências são claras: os destinos de Geralt e Yennefer passam a estar ligados. A partir daquele momento, nasce não apenas uma conexão profunda entre os dois, mas também uma dúvida que os acompanhará por muitos anos.

Amor ou magia?

A relação entre Geralt e Yennefer é marcada por uma dinâmica quase inevitável. Eles se aproximam, se afastam, discutem, seguem caminhos diferentes e, eventualmente, voltam a se encontrar. Esse ciclo se repete diversas vezes ao longo da saga.

O problema é que nenhum dos dois consegue ignorar uma questão fundamental: os sentimentos que compartilham são genuínos ou são consequência do desejo feito por Geralt?

Essa dúvida se torna um dos elementos centrais do relacionamento. Afinal, tanto Geralt quanto Yennefer valorizam profundamente sua liberdade. A ideia de que seus sentimentos possam ter sido influenciados por magia é algo difícil de aceitar para ambos.

Por isso, mesmo quando estão juntos, existe sempre uma sombra pairando sobre a relação. Eles não precisam apenas lidar com seus próprios sentimentos, mas também descobrir se esses sentimentos realmente pertencem a eles.

Duas pessoas difíceis de amar

Parte do fascínio dessa história está no fato de que nenhum dos dois personagens é idealizado.

Geralt costuma ser visto como alguém frio e distante, mas essa imagem esconde uma enorme dificuldade em lidar com emoções. Ele frequentemente evita confrontos emocionais e, em muitos momentos, prefere se afastar a enfrentar seus próprios sentimentos.

Yennefer, por outro lado, construiu ao longo da vida uma personalidade forte e imponente. Sua inteligência, poder e autoconfiança escondem inseguranças profundas, especialmente relacionadas ao medo de ser rejeitada ou abandonada.

Essas características fazem com que os dois se machuquem repetidamente. Muitas das crises do relacionamento não surgem por falta de amor, mas pela incapacidade de expressar vulnerabilidade. Ambos desejam ser amados, mas têm dificuldade em permitir que alguém se aproxime o suficiente para enxergar suas fragilidades.

É justamente essa imperfeição que torna a relação tão humana e tão fácil de compreender, mesmo em um universo repleto de monstros, magia e profecias.

O destino os une. As escolhas os mantêm juntos.

Um dos temas mais importantes de The Witcher é a discussão sobre destino. Desde os primeiros livros, a saga questiona constantemente até que ponto nossas vidas são determinadas por forças maiores ou pelas decisões que tomamos.

No caso de Geralt e Yennefer, o destino certamente desempenha um papel importante. O desejo feito diante do djinn conecta suas trajetórias e cria um vínculo que parece impossível de romper.

No entanto, a obra deixa claro que o destino, sozinho, não é suficiente para sustentar um relacionamento.

O vínculo mágico não resolve os conflitos entre eles. Não elimina suas inseguranças. Não impede discussões nem garante felicidade. O que mantém Geralt e Yennefer ligados ao longo dos anos não é apenas uma força sobrenatural, mas a decisão constante de continuar tentando.

Essa talvez seja uma das mensagens mais bonitas presentes na saga: o destino pode aproximar duas pessoas, mas são as escolhas que determinam se elas permanecerão juntas.

A resposta veio anos depois

Décadas após a publicação do conto original, The Witcher 3 revisita essa questão em uma das missões mais memoráveis do jogo.

Na missão O Último Desejo, Yennefer decide encontrar outro djinn. Desta vez, porém, seu objetivo não é obter poder ou realizar um novo desejo. Ela quer descobrir se o vínculo criado tantos anos antes é o verdadeiro motivo de seus sentimentos por Geralt.

Para isso, ela busca desfazer a ligação estabelecida pelo desejo original.

Pela primeira vez, os dois têm a oportunidade de descobrir quem realmente são sem a influência daquela magia. Se o vínculo for rompido e os sentimentos desaparecerem, a resposta estará dada. Se permanecerem os mesmos, então o amor sempre foi real.

Após os acontecimentos da missão, o encantamento deixa de existir. E é justamente nesse momento que surge a resposta que ambos procuravam há tanto tempo.

Nada muda.

Geralt continua amando Yennefer. Yennefer continua amando Geralt.

A magia desaparece, mas os sentimentos permanecem.

Geralt de Rívia e Yennefer observam as montanhas de Skellige após os acontecimentos da missão O Último Desejo em The Witcher 3
Após desfazerem o vínculo criado pelo djinn, Geralt e Yennefer descobrem que seus sentimentos continuam os mesmos.

O verdadeiro último desejo

O romance entre Geralt e Yennefer é frequentemente lembrado por seus momentos dramáticos, suas discussões e sua complexidade. No entanto, o que torna essa história tão especial não é o destino que os une, mas a escolha que fazem repetidamente ao longo dos anos.

Eles cometem erros. Tomam decisões questionáveis. Ferem um ao outro em diversos momentos. Ainda assim, continuam encontrando motivos para voltar.

Em um gênero que muitas vezes trata o amor como algo predestinado e perfeito, The Witcher apresenta uma visão mais madura e realista. O relacionamento entre Geralt e Yennefer não funciona porque eles são perfeitos um para o outro. Funciona porque, apesar de todas as dificuldades, continuam escolhendo permanecer juntos.

Talvez essa seja a verdadeira mensagem por trás de O Último Desejo. Não a ideia de que duas pessoas estão presas pelo destino, mas a de que o amor só se torna real quando existe liberdade para escolher.

E quando essa liberdade finalmente chega, Geralt e Yennefer descobrem aquilo que passaram décadas tentando entender: nunca foi a magia que os manteve unidos. Foram eles mesmos.

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Author Mateus Tomas
Published